Siberia: o decifrar da mente

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Fantasias é na Cacau Center!

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Ainda nos créditos iniciais, começa com o recitar de uma memória este “Siberia”, uma viagem íntima ao interior da mente humana através de Clint, a personagem interpretada por Willem Dafoe, ator fetiche de Abel Ferrara que aqui colabora com o cineasta nova-iorquino pela sexta vez. O cenário narrado por Dafoe é uma viagem ao norte do Canadá com os dois irmãos, a única extravagância que o pai lhes proporcionava na infância, e que é igualmente representativa da rara ligação masculina de camaradagem que unia o quarteto.

Estamos agora na Sibéria e as paisagens inóspitas cobertas de gelo revelam um homem fora do seu ambiente, a fugir de algo (de si?), talvez alheado de uma vida codificada de repressões, traumas e fantasias que aos poucos vamos tentar descodificar em terreno onírico. Dafoe é proprietário de um bar e interage com várias personagens com quem partilha a intimidade de estar num território áspero e desacolhedor. Um ataque de um urso – seguido de uma imagem de Dafoe parcialmente cego – carimbam a crueza do local e de um homem marcado pelo passado. Eis então que chegam duas mulheres, uma mais velha e uma mais jovem, que assumimos mãe e filha com uma novidade para dar. Nada é entregue frontalmente (as falas são em russo e não há legendagem propositadamente), mas quando a mais jovem liberta-se das vestes e mostra o seu corpo nu marcado por uma gravidez, sendo seguida pelo ajoelhar de Clint e um culto ao seu corpo fértil, percebemos que vai ser pai.

É aqui que o filme entra num novo registo, num retorno em que ganham significância as palavras de Clint na narração inicial, entrando este numa viagem à mente, simbolicamente aqui representada por uma descida a uma cave que vai desembocar num precipício – aquele que muito provavelmente separa o consciente do inconsciente. Nisto avançamos para um Ferrara “armado aos cucos” em território da psicologia analítica, com ideias e conceitos Junguianos a serem materializados numa descida às entranhas da psique e aos complexos. Não faltam assim altas doses de relacionamentos problemáticos com a família e outras personagens, como as antigas companheiras, com a carnalidade e sexualidade destas relações a ser explorada no grande ecrã antes de ser cortada por inúmeros cenários traumáticos que ajudaram a construir o homem auto-exilado que hoje é. “Tu não vives no mundo. Escolheste estar preso no fim do universo e daqui não consegues ver o teu egoísmo, arrogância e acima de tudo a tua ignorância. Finges estar aberto a todas as coisas, mas não consegues ver o quão fechado és. Achas mesmo que vais encontrar a tua alma aqui? (…) A tua alma está fora de ti e tens de a reclamar”, dizem a Clint na sua jornada. Neste momento, ele ignora essas palavras e acredita que o seu percurso terminou. Nada mais errado, ainda estamos no início de um caminho longo e tortuoso.

Muitos têm sido os cineastas (Tarsem, Ken Russel, Spike Jonze, Michel Gondry – só para citar alguns) que têm tentado transpor os segredos da mente e até mapeá-la, muitas vezes com incidência em sonhos e pesadelos, e normalmente recorrendo a fortes elaborações psicanalíticas que se edificam em estéticas vincadamente traumáticas repletas de elementos surreais que se pavoneiam no grande ecrã através de imagens complexas de beleza indescritível, mas muitas vezes de natureza indecifrável. Ferrara é apenas mais a embarcar nessa jornada, sequenciando situações que muitos diriam “Lynchianas” sem coesão, mas tal como acontece com os nossos fragmentos de memórias, as incoerências e surrealidades fazem parte do processo de tradução e transcrição das imagens que a mente debita. E Ferrara faz isso tudo usando o seu “boneco” preferido: um Willem Dafoe capaz de se metamorfosear neste ser perdido e entregue à solidão e autodescoberta.

E nisto, com apoio de uma edição sagaz no jogo de sequências por parte de Fabio Nunziata e Leonardo Daniel Bianchi, uma fotografia atordoante de Stefano Falivene, com bom uso da iluminação natural e artificial, transmitindo muitas vezes uma sensação deslocada de realismo mágico, e uma banda-sonora atmosférica de Joe Delia que nos hipnotiza e conduz em todo o percurso, Ferrara reencontra-se, acerta finalmente o passo e executa o seu melhor filme em décadas. 

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